11
mas o fim da vida
não implica no fim do dia
o fim do dia
não implica no fim da chuva
o fim da chuva
não implica no fim do frio
o fim do frio não é o fim do cinza
e alguem com febre
não tem todo o tempo do mundo
o mundo dura mais
do que a febre das pessoas
mas o mundo de alguns
acaba quando acaba sua febre
e a beleza pode que não tenha
relação nenhuma com sua febre
embora muitos sejam capazes
de converter febre em beleza
mesmo que beleza e febre
sejam insuficientes pra compor
toda uma vida
assim, o fim do sexo
não é o fim do amor
o fim do amor
não é o fim da doença do amor
a doença do amor
pode vir a ser o começo das metáforas
sobre doença, amor, febre, frio e chuva
e não há antídoto
capaz de neutralizar uma metáfora
13
derrubar paredes é uma bobagem
quero que elas se abram
como o leve toque de dois dedos, assim
dois dedos
e paredes não são
o enrodilhado das coxas das mulheres
paredes se curvam feito os subalternos dos príncipes
ou como heróis julgados injustamente
condenados à guilhotina
paredes se ajoelham
e assobiam para que passem em suas carruagens
os primeiros ministros da rainha
lançando moedas pros famintos
consolos de borracha pras beatas
feno e ração pros criadores de máquinas
todos um só coro de sátiros
tocando folk com rabecas chamejantes
e tamanco dando choque na planta dos pés
12
três básicos resultados obtemos
dos encontros em nossas vidas
podem ter sido péssimo
dando motivos pra arrependimentos
podem ter sido indiferentes
e a indiferença sempre é algo péssimo
dando motivo para arrependimentos
e podem ter sido ótimos
mesmo assim
dando motivos pra arrependimentos
eu não me arrependo
18
eu sei, vão dizer de mim:
ele é um animal deitado no charco
é a fagulha azul na raiz de uma fogueira
mas eu digo pra mim
você precisa de cócegas, meu caro rabugento
8
tua garota surge assim
feito os segundos que antecedem
a composição duma melodia
a compressa de calor das axilas dela
derretem teu coração de margarina
até não restar mais do que um cílio queimando
em meio a mancha no lençol
não será de outra forma
se um deságua
o outro pede licença
e vai arranhar o espelho do banheiro
até apagar a própria imagem
16
a saúde íntima
equivale ou não
a saúde pública
(isso não é uma pergunta)
onde, aliás
o tempo das perguntas
(inclusive as tolas)?
há um resumo que diz:
você escovou os dentes direitinho hoje?
depois, como pedir desculpas
sem que nos pesem
as irresponsabilidades?
não sei se lambra
mas na hora do recreio
na escola
as crianças costumavam comer sagu
e brincar de esconde-esconde
aí vai nossa saúde
tão íntima que é de todos
pode mesmo que não exista o diabo
então, quem é esse
que tanto gira com fúria
de abocanhar o próprio rabo?
14
o silêncio é a bolha de sabão
dos homens sábios de verdade
o imbecil acha que é sábio
um sábio de plantão
ele crê que basta silenciar
e será salvo
o sábio de plantão
acha que um bolha
pode protegê-lo
já o sábio de verdade
não sabe nada
nem acha nada
nada o protege
ele ignora correr perigo
quando põe a mão no fogo
o sábio de verdade
está ciente de que quando abrir a boca
sera pra dar seu grito estúpido
o mais alto que conseguir
a isso chama raiva
vingança
potência sonora
e até mesmo rock´n roll
o sábio de verdade
difere-se e muito
do sábio de plantão
o sábio de plantão tagarela
fala sem parar por dias e anos
a respeito dum silêncio
por ele domado
diz se tratar dum silêncio ensurdecedor
eu, no entanto
que não sou sábio de nenhum espécie
e estou mais que soterrado
convenci-me da existência
de outra espécie de silêncio
mais raro e singelo
chamo-o silêncio sem hematomas
e é isso
ou berro na cara
* luiz felipe leprevost
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